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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Investigação revela trituração de pintinhos machos na indústria de ovos no Brasil

Uma investigação realizada pela organização Mercy For Animals (MFA) trouxe à tona a prática da trituração de pintinhos machos recém-nascidos em um grande incubatório da indústria de ovos na Região Sul do Brasil. Segundo a entidade, cerca de 35 mil animais foram mortos em um único dia na unidade investigada, cujo nome foi mantido em sigilo.

Prática controversa na cadeia produtiva de ovos

Os pintinhos, com menos de 24 horas de vida, são submetidos a máquinas com lâminas rotativas de alta velocidade. Essa eliminação ocorre porque os machos não põem ovos e, de acordo com a investigação, não possuem características genéticas consideradas ideais para a produção de carne. Na cadeia produtiva, são separados das fêmeas logo após o nascimento e destinados ao descarte.

Luiza Schneider, vice-presidente de Investigações da MFA, destacou que o objetivo da investigação não era focar em uma denúncia específica, mas sim documentar uma prática representativa em grande parte da indústria. “Os pintinhos recém-nascidos têm plena capacidade de senciência, o que significa capacidade de sentir medo ou dor física. Eles têm o sistema nervoso completamente formado”, explicou Schneider.

O material da investigação também aponta que os maceradores mecânicos nem sempre garantem a morte imediata, o que, segundo a organização, pode prolongar o sofrimento dos animais. Em menor escala, fêmeas com anomalias, deformidades, sangramentos, nascimento prematuro ou que excedem a demanda também são descartadas.

Alternativas tecnológicas e avanços globais

A organização propõe a sexagem in ovo, uma tecnologia que permite identificar o sexo do embrião durante a incubação. Assim, ovos com embriões machos podem ser retirados antes da eclosão, evitando o nascimento e o subsequente descarte dos pintinhos.

Essa tecnologia já é utilizada em outros países. Na União Europeia, aproximadamente 130 milhões de um total de 340 milhões de poedeiras eram provenientes deste método em junho deste ano, segundo a Innovate Animal Ag. Alemanha, França, Áustria e Itália já possuem legislações que proíbem a trituração, enquanto Noruega e Suíça avançam para sua eliminação por decisão de mercado.

No Brasil, a primeira máquina de sexagem in ovo foi instalada em julho de 2025 em Nova Granada (SP). A Raiar Orgânicos foi o cliente âncora, comprometendo-se a converter todo o seu plantel. Os primeiros ovos produzidos com a tecnologia chegaram ao mercado em dezembro do mesmo ano.

Desafios financeiros e pressão do mercado

A adoção da tecnologia no Brasil ainda é limitada, principalmente devido a obstáculos financeiros. O método convencional custa cerca de R$ 7 por ave, enquanto o adicional da sexagem in ovo varia entre R$ 5 e R$ 10 por ave, representando um acréscimo de 80% a 150% sobre o preço inicial. No entanto, esse custo adicional pode ser diluído, representando poucos centavos por dúzia para o consumidor final.

Vanessa Garbini, vice-presidente de Relações Institucionais e Governamentais da MFA, argumenta que a adoção da tecnologia em países como Suíça e Noruega, mesmo sem legislação específica, demonstra que os custos finais não inviabilizam os ganhos da indústria. “Se fosse inviável, não estaria acontecendo na Europa”, afirmou.

Empresas como Planalto Ovos, Grupo Mantiqueira e Korin demonstraram interesse em suspender a trituração, condicionando a mudança à disponibilidade de uma tecnologia economicamente acessível e operacionalmente viável. Um encontro nacional sobre sexagem in ovo reuniu representantes do setor, incluindo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).

Tramitação no Congresso e percepção do consumidor

Atualmente, não há uma norma federal específica no Brasil que proíba o descarte de pintinhos machos. O tema está em discussão no Congresso Nacional através dos Projetos de Lei 783/2024 e 3034/2026. O PL 783/2024 já passou por comissões e aguarda votação em plenário, enfrentando parecer contrário na Comissão de Agricultura por questões econômicas.

A Constituição Federal proíbe práticas cruéis contra animais, e a legislação ambiental também aborda maus-tratos, dispositivos que a MFA pretende usar em discussões futuras. A organização também planeja encaminhar uma denúncia ao Ministério Público.

Pesquisas indicam que a maioria dos consumidores brasileiros se sente desconfortável com o abate de pintinhos machos e apoia a busca por alternativas. Um levantamento da Innovate Animal Ag mostrou que 73% dos compradores de ovos se sentem desconfortáveis com a prática, e 76% concordam que a indústria deveria encontrar uma solução. Além disso, 79% demonstraram interesse em comprar ovos produzidos com sexagem in ovo, com 76% dispostos a pagar mais pelo produto.

Luiza Schneider aponta a falta de informação como um fator que contribui para a pouca pressão social sobre o tema. “Há um desconhecimento da população em relação a algumas práticas dessa indústria. Então, há pouca mobilização para que elas não aconteçam”, disse.

Vanessa Garbini ressalta que a exposição à realidade da prática pode impulsionar mudanças. “Depois que você sabe o que acontece, não consegue esquecer. Um monte de animais, bebezinhos recém-nascidos rolando em esteiras para serem triturados ainda conscientes. É praticamente impossível uma pessoa não se impressionar com essa atividade”, avaliou.

Com informações da Agência Brasil