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domingo, 23 de agosto de 2026

Apostadores de bet em periferias buscam ajuda após vida virar pesadelo

O que começou como uma forma de entretenimento ou busca por renda extra se transformou em um pesadelo para muitos moradores de periferias. Apostadores de plataformas de bets relatam a perda de bens, a desestruturação familiar e o endividamento extremo, buscando ajuda profissional para lidar com o que muitos descrevem como o pior vício de suas vidas.

O ciclo vicioso do endividamento

Kaio*, de 42 anos, é um dos exemplos. Ele conta que perdeu R$ 5 mil em poucos minutos em uma madrugada, dinheiro que havia pegado emprestado para quitar dívidas anteriores de apostas. A perda da noção do tempo é um dos sinais da ludopatia, transtorno caracterizado pela compulsão por jogos. O vício se agravou após o luto pela perda do pai, levando-o a vender carro, móveis e, por fim, a casa onde morava com a família.

O endividamento de Kaio ultrapassou R$ 200 mil, forçando-o a pedir demissão do emprego. Atualmente, ele frequenta um centro de apoio psicossocial (Caps) no Distrito Federal, onde participa de grupos terapêuticos e faz uso de medicação. “Eu passei a tomar três remédios por dia. E os grupos [terapêuticos] fazem com que eu não me sinta mais sozinho”, relata.

Vulnerabilidade social e publicidade enganosa

Especialistas apontam que pessoas em classes C e D, que vivem em comunidades periféricas e buscam melhorar suas condições de vida, são alvos fáceis. A psiquiatra Kátia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti do Hospital das Clínicas de São Paulo, explica que anúncios induzem à falsa ideia de que as bets podem complementar a renda.

“São pessoas que querem retornos rápidos induzidas a acreditar que podem ter com as bets. Isso se tornou realmente muito perigoso”, afirma Branco. O contexto social eleva a vulnerabilidade, pois cada real perdido impacta diretamente na subsistência da família, agravando quadros de depressão, ansiedade e até ideação suicida.

O “cassino na palma da mão” e a busca por tratamento

A psicóloga Claudia Feres, da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, destaca que a tecnologia tornou o acesso aos jogos mais fácil, com um “cassino na palma da mão”. Ela enfatiza a importância do tratamento focado na redução de danos e no afastamento do celular.

As unidades de saúde oferecem equipes multidisciplinares para atender os pacientes em diferentes estágios da doença. A busca por ajuda, tanto do indivíduo quanto dos familiares, é crucial. Sinais de alerta incluem isolamento social, inversão do ciclo sono-vigília e nervosismo.

João*, de 32 anos, paraplégico após uma briga, busca tratamento em um Caps. Sua mãe relata a preocupação com os gastos do filho com jogos online, que consomem os poucos recursos da família. “Na verdade, não consigo me controlar. Não sei o quanto já perdi”, confessa João.

Resistência ao tratamento e a realidade das comunidades

Ricardo*, de 26 anos, pedreiro autônomo e morador da comunidade do Sol Nascente, em Brasília, relata ter perdido mais de R$ 100 mil em apostas desde 2018. Ele começou por curiosidade e pela promessa de renda extra, mas o vício levou ao fim de seu relacionamento. “A abstinência bate tão forte que a gente não consegue ter uma noite de sono normal”, explica.

Apesar de reconhecer a gravidade da situação, Ricardo ainda reluta em se considerar viciado, pois não precisou vender bens para cobrir dívidas. Ele aponta que é comum em sua comunidade a formação de grupos online para trocar dicas de apostas, evidenciando a disseminação do comportamento.

Jogo responsável e o papel das empresas

Em nota, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) afirmou reconhecer a importância do debate sobre prevenção ao jogo problemático e proteção de vulneráveis. A entidade reforça que as apostas devem ser vistas como entretenimento, não como fonte de renda.

O IBJR considera que as empresas autorizadas operam sob regramento e controle, com anúncios publicitários submetidos a regras rigorosas que vedam mensagens de enriquecimento rápido ou solução financeira. A entidade defende o fortalecimento do ambiente regulado para aumentar a rastreabilidade, a responsabilização e a proteção aos apostadores.

Com informações da Agência Brasil