
O Circo de Tradição Familiar foi oficialmente reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A manifestação cultural agora constará no Livro de Registro das Formas de Expressão.
Descrito pelo Iphan como itinerante e organizado em torno de núcleos familiares, o circo de tradição familiar se destaca pela transmissão oral de saberes e técnicas entre gerações. A decisão do conselho consultivo ressalta a relevância nacional dessa forma de expressão, tanto pela força de seus espetáculos quanto pelas práticas lúdicas e pela memória social que carrega.
A luta por reconhecimento
A aprovação do registro ocorreu em uma reunião no Palácio Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro. A decisão está intrinsecamente ligada à perseverança das famílias que mantêm viva essa tradição. O Circo de Tradição Familiar Zanchettini, fundado no Paraná em 1991, foi pioneiro na liderança desse processo de reconhecimento.
A companhia, iniciada por Wanda Cabral Zanchettin e Primo Júlio Zanchettin, é mantida por seus dez filhos e descendentes. Wanda dedicou anos de sua vida à luta pelo reconhecimento, protocolando o pedido oficial no Iphan em 2005. A mobilização envolveu famílias circenses, associações, pesquisadores e instituições públicas.
Edlamar Maria Cabral Zanchettin, filha de Wanda, celebrou a conquista, comparando-a a um “Oscar para o circo brasileiro”. Ela lamentou que sua mãe não tenha presenciado o momento, mas ressaltou a força e a dedicação de Wanda na condução dessa batalha.
Origens e gerações no picadeiro
A história do circo familiar remonta a 1949, quando Wanda Cabral, aos 18 anos, atuava no circo de ciganos Irmãos Marques. Ao se casar com o italiano Primo Júlio, juntos formaram o Circo Teatro Gávea, onde aprenderam e repassaram os saberes circenses.
Após o falecimento do marido em 1991, Wanda renomeou a companhia para Zanchettini em sua homenagem. Dez filhos cresceram no ambiente circense, atuando em diversas funções e mantendo a união familiar como pilar da trajetória.
A renovação é constante, com as novas gerações já integradas ao elenco. Os mais jovens dão continuidade à tradição, transmitindo a sabedoria e a linguagem única do circo. Um dos sobrinhos, inclusive, expandiu sua carreira circense internacionalmente em Dubai.
Desafios e esperança
Apesar do reconhecimento, os circos tradicionais enfrentam dificuldades, como a concorrência com eventos de celebridades e shows gratuitos. Edlamar destaca que o circo que eles apresentam é o “tradicional”, com palhaços, trapezistas e globo da morte, diferentemente de atrações modernas.
Os custos com impostos e taxas também são um obstáculo. Edlamar reclama que o Poder Público muitas vezes os tributa como se fossem estabelecimentos comerciais fixos, e não como manifestação cultural. A cobrança pelo uso do solo, sem considerar prejuízos por intempéries como a chuva, agrava a situação.
A expectativa é que o título de Patrimônio Cultural facilite o diálogo com prefeituras para obter melhores condições, como preços reduzidos ou cessão de terrenos gratuitos. O reconhecimento é visto como uma ferramenta valiosa para garantir a continuidade e a valorização do Circo de Tradição Familiar.
Com informações da Agência Brasil







