Início Meio Ambiente Estudo revela que Cerrado pode armazenar mais carbono que a Amazônia

Estudo revela que Cerrado pode armazenar mais carbono que a Amazônia

Um novo estudo publicado na revista científica New Phytologist aponta que as áreas úmidas do Cerrado, como veredas e campos úmidos, podem armazenar uma quantidade de carbono significativamente maior do que se imaginava, superando até mesmo a densidade média encontrada na Amazônia.

O Cerrado como reservatório de carbono

A pesquisa, liderada pela cientista Larissa Verona em colaboração com instituições como a Unicamp e a UFMG, é a primeira a detalhar os estoques de carbono em solos de até quatro metros de profundidade nessas regiões do Cerrado. Os resultados indicam um armazenamento de cerca de 1.200 toneladas métricas de carbono por hectare, um volume até seis vezes superior ao estimado para a Amazônia.

Esses estoques de carbono são compostos por material orgânico extremamente antigo, com datação por radiocarbono indicando uma idade média de aproximadamente 11 mil anos, e registros que chegam a ultrapassar 20 mil anos. “Esse carbono levou muito tempo para se acumular. Se ele for perdido, não podemos reconstruí-lo rapidamente, como ocorre com uma floresta que pode ser replantada”, alerta Larissa Verona.

Fatores que explicam o acúmulo

As condições de umidade e a consequente falta de oxigênio nas veredas e campos úmidos do Cerrado desaceleram o processo de decomposição da matéria orgânica. “Como resultado, a matéria orgânica se acumula ao longo do tempo e permite que esses ambientes armazenem grandes quantidades de carbono”, explica Amy Zanne, coautora do estudo.

Ameaças e riscos climáticos

A importância do Cerrado para o balanço global de carbono é subestimada, segundo os pesquisadores, pois seus vastos estoques de carbono não eram conhecidos até recentemente. No entanto, o bioma enfrenta sérias ameaças, como a expansão agrícola, a drenagem de áreas úmidas e a captação excessiva de água para irrigação.

Quando o solo dessas áreas úmidas seca, a matéria orgânica acumulada se decompõe rapidamente, liberando dióxido de carbono e metano na atmosfera. “Se começarmos a drenar essas turfeiras e liberar esse carbono acumulado, lançaremos bombas de carbono na atmosfera”, adverte Rafael Oliveira, professor da Unicamp.

Medições indicam que cerca de 70% das emissões anuais de gases de efeito estufa dessas áreas ocorrem durante a estação seca. Com o aumento das temperaturas e períodos de seca mais longos devido às mudanças climáticas, a tendência é que uma parcela maior desse carbono armazenado seja liberada nos próximos anos.

Cerrado sob pressão e a necessidade de proteção

O Cerrado, segundo maior bioma da América do Sul e a savana mais biodiversa do mundo, já sofre com a conversão de suas áreas para a agricultura e pecuária. Os autores do estudo defendem uma maior proteção para as áreas úmidas do bioma e um reconhecimento mais amplo de seu papel climático.

Apesar da legislação brasileira prever proteção para esses ambientes, estima-se que até metade das áreas úmidas do Cerrado já tenha sofrido algum tipo de degradação. “Chamamos o Cerrado de bioma de sacrifício, porque o Brasil quer proteger a Amazônia, mas também quer manter a agricultura. Então, o agronegócio acaba convertendo o Cerrado para a produção de commodities”, afirma Larissa Verona. Ela conclui que é preciso “lutar para protegê-lo” devido a seus “grandes estoques de carbono de longo prazo”.

Com informações da Agência Brasil