
Um estudo recente aponta que 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres, evidenciando uma disparidade de gênero significativa nessa função essencial para a sociedade. A pesquisa, conduzida pela professora Valquiria Elita Renk, do Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Políticas Públicas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), revela os desafios enfrentados por essas profissionais, muitas vezes invisibilizadas e sobrecarregadas.
O peso cultural do cuidado
Segundo Valquiria Renk, as mulheres e meninas são as mais afetadas em suas vidas profissionais e acadêmicas devido à responsabilidade do cuidado. “Uma mulher para de estudar para cuidar dos irmãos, dos trabalhos domésticos. Faz isso todos os dias e, quando termina, recomeça no dia seguinte. É um trabalho que não tem fim”, afirma a pesquisadora, ressaltando o forte cunho cultural que atribui essa tarefa predominantemente ao gênero feminino no Brasil.
Políticas públicas e o cenário internacional
A pesquisa também compara o cenário brasileiro com o de outros países que já implementam políticas de apoio aos cuidadores. Na Finlândia e na Dinamarca, por exemplo, assistentes domésticos e de serviços são pagos pelas municipalidades. Na França, Áustria, Alemanha e Holanda, há custeio para alguns serviços prestados por assistentes. O Reino Unido e a Irlanda compensam a perda de renda durante o período de assistência familiar, enquanto a Espanha possui a Lei de Promoção da Autonomia Pessoal e Atenção às pessoas em situação de dependência, que inclui compensação econômica.
No Brasil, a Política Nacional do Cuidado, instituída no final de 2024, ainda está em fase de implementação, considerada tímida pela pesquisadora. Renk defende não apenas o pagamento pelo trabalho das mulheres, mas também o reconhecimento social e a compensação financeira para aliviar a sobrecarga.
O cuidado como trabalho e o impacto na aposentadoria
A professora enfatiza que o cuidado vai além das tarefas práticas, envolvendo uma relação afetiva profunda. Idealmente, o cuidado deveria ser reconhecido como um trabalho, permitindo que o período dedicado a ele contasse para a aposentadoria, como já ocorre no Uruguai, onde mulheres podem se aposentar mais cedo com base no número de filhos.
Metodologia e perfil das cuidadoras
A pesquisa envolveu 18 entrevistas com mulheres de áreas urbanas e rurais do Paraná e Santa Catarina, responsáveis pelo cuidado de idosos, doentes ou pessoas com deficiência. As conclusões indicam que essas mulheres são, em sua maioria, idosas, dedicam seu tempo de descanso e lazer a essa tarefa e frequentemente respondem “porque é minha obrigação” quando questionadas sobre o motivo de cuidarem de seus familiares. A maioria das cuidadoras são filhas (68%) ou esposas (21%), com idades entre 41 e 60 anos (43%).
A maioria possui o ensino fundamental (58%), mas há também mulheres com curso superior (30%) e ensino médio (11%). Em termos de profissão, 32% são agricultoras, 26% atuam no mercado formal, 26% são aposentadas, 11% são do lar e 5% são estudantes. Um dado alarmante é que 61% pararam de trabalhar para cuidar do familiar em tempo integral.
Cansaço, solidão e a “Geração Sanduíche”
O estudo aponta que essas mulheres sentem cansaço extremo, solidão e desamparo, sem receber bonificações ou ter direito à previdência. A família nem sempre colabora, e elas próprias não têm tempo para se cuidar, pois priorizam os outros. Essa sobrecarga é ainda mais acentuada na chamada “Geração Sanduíche”, mulheres que conciliam trabalho formal, gestão da casa e cuidado com filhos e idosos.
Educação e divisão de responsabilidades
A pesquisadora defende a necessidade de educar meninas e meninos sobre a importância da divisão igualitária do trabalho doméstico e do cuidado dentro de casa. “Os meninos também têm responsabilidade, tanto como as meninas. É preciso ver a educação como um processo humanitário e uma mudança cultural muito grande”, ressalta Renk.
Um ponto positivo recente mencionado é que, em alguns casos de divórcio, juízes já estão determinando que ex-maridos paguem pelo tempo em que as ex-mulheres cuidaram dos filhos. “Parece uma luzinha no fim do túnel”, avaliou Valquíria.
Com informações da Agência Brasil







