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Roubo de obras de Monet, Picasso e Dalí no Rio prescreve após 20 anos sem punição

Oito anos após o roubo de cinco obras de arte avaliadas em mais de US$ 10 milhões (R$ 52 milhões na cotação atual) do Museu Chácara do Céu, no Rio de Janeiro, o crime prescreveu nesta semana sem que os responsáveis fossem punidos ou as peças recuperadas. O assalto ocorreu na Sexta-feira de Carnaval, 24 de fevereiro de 2006, em meio à multidão do Bloco das Carmelitas, em Santa Teresa.

Considerado um dos maiores roubos de arte do Brasil e um dos dez maiores do mundo pelo FBI, o crime viu os assaltantes pularem os muros do museu e desaparecerem pelas ruas do bairro com quadros de Claude Monet, Salvador Dalí, Pablo Picasso e Henri Matisse. Testemunhas da época relatam a surpresa e a confusão gerada pela ação em plena festa popular.

Suspeitos e investigações infrutíferas

Ao longo de duas décadas, três nomes principais figuraram nas investigações: Paulo Gessé, Michel Cohen e Patrice Rouge, todos com conexões com o mercado de arte. Apesar de grampos telefônicos, buscas em residências e prisões temporárias, nenhuma evidência concreta levou à condenação.

Paulo Gessé, suspeito de transportar uma das obras em sua kombi, chegou a ser preso, mas foi solto por falta de provas. O negociador francês Michel Cohen, com histórico de fraudes nos EUA, foi preso no Rio em 2003, mas fugiu antes do roubo de 2006 e permaneceu foragido por 16 anos. Patrice Rouge, artesão francês radicado no Brasil, teve sua casa vasculhada, mas negou veementemente qualquer envolvimento em entrevista exclusiva à Agência Brasil, afirmando estar na França na época do crime.

Descaso institucional e falhas na segurança

A jornalista Cristina Tardáguila, autora do livro “A Arte do Descaso” (2015), aponta um “desinteresse institucional generalizado” na solução do caso. Ela descreve uma série de negligências, como a demora da primeira patrulha policial em chegar ao museu, a falta de preservação de provas no local e a falha na comunicação das informações sobre as obras roubadas pela Polícia Federal.

A estrutura da Polícia Federal à época, que concentrava crimes ambientais e de patrimônio histórico no mesmo departamento, a ausência de um banco de dados nacional de bens musealizados desaparecidos e o sumiço do próprio inquérito policial em 2014, recuperado apenas em 2015, são citados como exemplos do “descaso”. O processo criminal principal foi arquivado provisoriamente por “falta de autoria definida”.

Reforço na segurança e legado das obras

Desde 2007, o Museu Chácara do Céu fecha nos dias de Carnaval e de desfiles de blocos em Santa Teresa. A segurança foi significativamente reforçada, com mais seguranças, monitoramento por câmeras 24 horas e procedimentos padronizados para controle de acesso. O museu mantém contato estreito com a polícia e a Guarda Municipal.

As obras roubadas incluem “Marine” (Monet), “Le Jardin du Luxembourg” (Matisse), “La Danse” (Picasso), “Homme d’une Complexion Malsaine Écoutant le Bruit de la Mer sur les Deux Balcons” (Dalí) e o livro de gravuras “Toros” (Picasso). Especialistas lamentam a perda cultural e patrimonial para o país, ressaltando que essas peças eram únicas e insubstituíveis.

Apesar da prescrição e da falta de recuperação, a diretora do museu, Vivian Horta, afirma que a esperança de encontrar as obras persiste e que elas continuam a fazer parte da história e do legado de Raymundo Ottoni de Castro Maya, fundador do museu.

O caso também ganhará destaque com um longa-metragem ficcional baseado no livro “A Arte do Descaso”, em fase de captação de recursos, que busca não glamourizar o roubo de arte e lançar uma nova luz sobre o episódio.

Com informações da Agência Brasil

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